Seja no silêncio das panelas ou no estampido dos tiros, nunca nos calemos
Ao interromper-se o som das panelas, ouve-se o estampido das armas. 9 disparos que, na cidade campeã das balas perdidas, tinham alvo certo. Ceifaram duas vidas jovens. Um pai de família que fazia bicos para sustentar esposa e filho e uma guerreira eleita democraticamente, uma mãe, um ser humano que se indignava com toda forma de injustiça. Uma negra da Maré, tornada vereadora e que fazia ecoarem as vozes de milhões de marginalizados, de lutadores sofridos, de outras guerreiras, negras ou não, acolhidas em seus discursos e atitudes apaixonados, incontidos, calorosos.
Não dá pra dizer que da panela ao tiro não há uma óbvia conexão, uma ponte que liga os eventos, um cordão umbilical que ainda não foi rompido, que teima em ligar o horroroso feto do poder e da ganância ao fértil útero do conservadorismo e da alienação. Os fascistas que tanto disseram que não vão passar, já passaram há muito. Logo após a tragédia, milhares de comentários maldosos, muitos de gente que deve ter se pintado de verde e amarelo, que decorou dancinha, que gritou FORA PT e FORA DILMA com a mesma veemência com que disparam seus berros de MITO 2018. Carniceiros que, esquecendo-se da mínima humanidade que ainda deve, creio eu, existir lá no fundo de suas carcaças desalmadas, falam que foi bem feito, que ninguém mandou ficar defendendo bandido, porque o bandido foi lá e a matou. Curiosamente, alguns desses, inclusive um deputado federal, entoavam seu sentimento de pesar pelos PMs mortos no incessante combate nas favelas. O luto seletivo dos canalhas preenchidos pelo ódio e com sangue nas mãos, que se fazem de desentendidos face os muitos pretos favelados que também são empilhados como lixo nas ruas matizadas com o rubor da intolerância, vítimas, muitas vezes, de gente do tipo que eles defendem, gente que quer chegar nos morros, fazer e acontecer, mas que não quer nenhuma Comissão da Verdade depois para lhes imputar culpa por escarnecer dos mais elementares direitos humanos.
O caso de Marielle é um dentre muitos terríveis atos de terrorismo político que vêm assolando nosso país nos últimos anos. Só no recente 2018 já foram vários. Você não vê nenhuma dessas mortes sendo anunciada nas manchetes dos principais conglomerados midiáticos. São poeira pra debaixo do tapete. E a própria Marielle, não fosse sua posição combativa e pública, não fosse pelos requintes de sua morte, uma óbvia execução, passaria também em branco. Mulher, negra, vinda da periferia, só mais uma na estatística. O agravante está bem aí: a primeira execução política durante a Intervenção Federal ao RJ, de uma lista que pode se tornar maior. A obscura autoria desse crime hediondo, no que diz respeito a nomes e cargos, pouco importa agora. Sabemos o motivo, sabemos o contexto, só não conhecemos ainda o rosto que há por trás. A vereadora, que conhecia de berço a condição de seus conterrâneos mais desfavorecidos, sabia dos abusos, do terror, da violência desmedida contra os seus. Ela denunciava isso, entoava em público as acusações contra o poder público, contra os militares, contra a negligência da elite política. Sua voz era uma arma tão perigosa quanto a que foi usada para calá-la, mas nossa vulnerável condição humana pode ser facilmente destruída, com balas e com o poder do ódio e da intolerância contra aqueles que se colocam em favor dos fantasmas sociais.
Compartilhamos a nação com gente que exalta os torturadores da ditadura militar, que ri e comemora o falecimento da esposa de um político que detestam, que quer uma arma na mão com o pretexto de fazer justiça por conta própria, quando na verdade só querem estar nessa esfera de micro poder, dotados da capacidade de intimidar e revidar. Somos da pátria que abriga os mais nefastos espécimes de uma polarizada seita de acéfalos políticos, que geralmente comem o pão que o diabo amassou na mão de um sistema que os esmaga diuturnamente, que os escraviza de forma velada, que os desmembram pelo lucro, mas que mesmo assim o idolatram e que, também, idolatram suas lideranças mais perniciosas, que se fazem de defensores da virtuosidade humana, mas só dos humanos que lhes convêm. Estamos pisando no mesmo solo que a gentalha que, tão convenientemente, agora se lembra das milhares de mortes anuais pela violência. Que dizem que a Marielle é só mais uma, que só tá dando mídia porque era "vereadora do Pisóu". Como se de qualquer dos outros pretos, das outras mulheres, dos homossexuais, dos transsexuais e de todos os outros que foram vítimas da mais cristalizada forma de rancor e ignorância se compadecessem estes urubus que mendigam atenção em comentários nas redes sociais, fazendo parecer que uma tragédia anula as outras, ou que qualquer uma delas lhes importa.
Mas, ao menos os atos espalhados pelo país e o emocionante velório público das duas vidas covardemente encerradas, ocorrido na Cinelândia, servem, ironicamente, de esperança. Também somos conterrâneos daqueles que defendem o legado de uma luta precocemente interrompida. Vivemos em meio aos inconformados que um dia empurrarão, cedo ou tarde, a besta quimérica do conservadorismo de volta à sua tumba mal vigiada. Não há um minuto de silêncio diante da morte de uma lutadora, há apenas mais luta. Não façamos deste exemplo de empoderamento e militância ativa uma simples mártir dos despossuídos e marginalizados. Sejamos a extensão de sua altivez, de sua coragem. Que os tiros numa rua escura não nos afugente do calor da batalha, que torne nosso ímpeto mais ardente. Não daremos a eles o gosto de vencer esta guerra por W.O.
Marielle presente, hoje e sempre!
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