O obscurantismo contra os pensadores, de Sócrates a Carlini
Parece que o douto ministro do STF, Alexandre de Moraes, não apenas ascendeu rapidamente
na carreira jurídico-política, mas também tem suas vezes de profeta. Em meio à intervenção do Rio de Janeiro e à
constrangedora denúncia de apologia ao crime feita contra o maior nome nacional na pesquisa de entorpecentes, o professor Elisaldo
Carlini, estamos lenta e obstinadamente caminhando para um país com mais armas e menos pesquisas.
Esse episódio é a farsa que reprisa a tragédia. Da mesma forma que em outros tempos, em outras crises de ordem político-econômica, o avanço do conservadorismo, numa onda que pode durar décadas e interromper muitos ganhos do progressismo, tem algumas peculiaridades que, apesar de não serem inéditas, acabam surgindo em meio a escândalos ou desvios que promovem um estresse coletivo. Um deles, muito evidente, é o obscurantismo. Este verbete, que é um sinônimo para a ignorância, denota a impregnação sóciocultural, mesmo que de forma não arbitrária, de algum idealismo ou irracionalismo arcaico e, assim, uma danosa negação a certos avanços científicos. A ciência é um dos marcos da civilização humana que torna nossa espécie tão distinta dentre as outras, que representa um marco do espírito criativo e quase sem fronteiras da humanidade. Os frutos do seu enriquecimento teórico-prático promovem não somente a evolução do homem, mas, com o uso parcimonioso, promove o engrandecimento da própria natureza. Vejam, por exemplo, as medidas recentes contra os muitos danos que, ao longo de séculos, causamos ao meio ambiente e que somente através de nova ciência, ciência sensata e ecologicamente consciente, podemos reverter.
A religião, antiga e onipresente(perdoem o trocadilho) inimiga da ciência mais arrojada, une suas forças ao reencarnado conservadorismo político, que seduz a juventude de nossos tempos, tal como o fez em períodos anteriores como, digamos, a primeira metade do século XX(começa com fas, termina com ismo). Sob a bandeira dos bons costumes e do tradicionalismo, os criacionistas, o movimento antivacina, os antiacadêmicos e os anti-qualquermodernidade se aventuram pelo proselitismo da retomada dos bons e velhos tempos. Estão aí, para não me deixar mentir, os terraplanistas, no extremo mais infame da equação, tentando recordar aquela bela época antes das essenciais descobertas astronômicas, antes de os bruxos Nicolau Copérnico e Galileu Galilei resolverem dar os primeiro passos rumo à iluminação ou, no que lhes diz respeito, da danação.
A coisa, evidentemente, não está num terreno escorregadio apenas por estar, ou porque há um contingente de não esclarecidos que brota do seio do arcaísmo de tempos em tempos para sabotar nossas meticulosas operações de elucidação das massas. Alguns dirão que é exagero, mas tudo tem um viés político na vida. O simples ato de nos abstermos do ato político é uma negação de viés político, pois enseja na própria negligência da vida prática, do nosso papel social mais premente. Assim o é com esse projeto de retorno à Idade Média. Um bom exemplo, um pouco externo à questão mas que alude a um propósito comum, é a moda dos monarquistas. Um bando de gente, neste caldeirão suntuoso de frivolidades que são as redes sociais, harmoniza-se sob um pretexto um tanto quanto peculiar: louvar a moribunda monarquia nacional. Há, como muitos sabem ou desconfiam, dezenas de descendentes da família real luso-brasileira vivendo não apenas em nossa antiga metrópole colonial, mas também aqui. Insatisfeitos com os desmandos ostensivos na política nacional, que lhes parece ter como denominador comum a república, os monarquistas reivindicam o direito dos descendentes de D. Pedro I e II de governar em solo nacional, para resguardar os áureos dias de nosso último imperador, um conhecido patrono do avanço técnico-científico e de tudo que há de mais erudito e avançado. De igual sorte, para resumir a ópera, ocorre com aqueles que, rebelando-se contra o sistema vigente, querem retomar os velhos hábitos também no que diz respeito à ciência, à medicina e o letramento.
Volvamos à questão política. Não se trata somente de uma histeria coletiva, por certo. Somos a geração informacional, tecnológica, moderna. Vivemos séculos à sombra da ignorância, não podemos relegar nossos avanços a uma terrível mancha de vaidade metafísica e irracional somente por puro capricho, não é? Mas eu lhes indago o que é pior: não saber das coisas e, por isso, temer as novidades como obra do maligno ou ter acesso ao que há de mais moderno e refinado em estudos científicos e, ainda assim, renegar tudo em nome da política conservadora, anticomunista, antiesquerda, antiprogressista? A agenda do neoconservadorismo é clara: as coisas eram muito melhores antes que esses desviados esquerdistas tomassem as rédeas da produção cultural e acadêmica. No Brasil, exemplifico a monstruosa excomunhão que a direita quer promover a Paulo Freire, deslegitimar sua carreira acadêmica e sua polêmica mas extremamente acurada metodologia pedagógica. O cara mais lido no exterior, laureado internacionalmente por seus esforços de inclusão social alinhada ao ensino, tendo seu bom nome arrastado pela lama do apedeutismo.
E é assim que, gradual e lentamente, damos lugar ao discurso autoritário vazio de botar ordem na casa, de "fazer a América grande outra vez", de retomar nossas raízes. Que raízes são essas se não o abismo da ignorância? Não importa se nas Américas, na Europa ou na África, o que subsistia no passado era a falta do conhecimento que se tem hoje, e não foi com pouco esforço que isso foi revertido por uma fila extensa de pensadores brilhantes e dedicados. A própria parcimônia política, os gritos de emancipação social, a diplomacia entre os diferentes países, o esforço global pela autodeterminação dos povos, todos conceitos que, mesmo não bem aplicados pelos países dominantes, foram iniciados e poderiam e podem ser desenvolvidos de forma mais completa. Tudo isso vem sendo assaltado, há séculos, por incontáveis reprises da vulgarização ideológica, que transforma todas as democracias em plutocracias conservadoras e individualistas. Isso não vem de hoje, caros. Lembremo-nos que a própria Revolução Francesa, cujos ideais ecoavam a libertação dos oprimidos, descambou quase de imediato para uma nova forma de concentração monopolista de poder, na figura de um Napoleão, que prontamente acolheu a ala mais ressentida da burguesia.
A cicuta que vitimou Sócrates, a fogueira que quase fez arder Galileu e a mordaça que quase foi colocada agora sobre Elisaldo Carlini, todos são elementos de um esforço unilateral pela inviabilização do progresso. Quando cada um destes tenta dar uma luz, ainda que diminuta, aos que estão cegos no fundo de um poço escuro, precisamos protegê-los. Sócrates morreu aos 70, mas com sua lucidez, que tantos outros ensinamentos poderia ter transmitido se tivesse vivido além? Se Galileu tivesse mesmo ardido em chamas, o que teria sido de seu nome, quem sabe? Depois de queimar-lhe a carne, a Santa Inquisição certamente haveria de queimar sua existência das páginas da história. E agora, com o professor emérito da UNIFESP, grande autoridade na pesquisa dos entorpecentes, qual é o diagnóstico? O de que nosso governo tenta conter qualquer avanço humanitário, coibir qualquer esforço de transformar a vida das pessoas da maneira menos onerosa, de demonstrar empatia ante um problema social gravíssimo. Não por coincidência, a Intervenção Federal foi decretada dia desses, como critiquei há pouco. Um esforço para conter a violência, utilizando-se de mais violência e repressão. Percebem a sinergia entre os dois fatos? "Meter bala" nos habitantes do morro e ao mesmo tempo tentar suprimir pesquisas inovadoras e formidáveis sobre o uso, frisemos, MEDICINAL e NÃO RECREATIVO da maconha, para ajudar a vida daqueles que sofrem de doenças cujos tratamentos mais ortodoxos não surtem efeito. E tudo isso com a pompa de que se está "combatendo a apologia ao crime". Ah, se tolher o avanço científico fosse crime, seriam eles tão veementes no cumprimento da lei?
Poderíamos dizer, agora, que estamos de volta à Idade Média, no que concerne à ciência e à descoberta. Mas não por conta do comum e insustentável mito de que a Idade Média foi uma Idade das Trevas, tal como se dizia na Renascença e que os ideólogos do Iluminismo assinaram embaixo, com ainda mais ênfase. Não, isso é uma falácia sem escrúpulos, oriunda da má fé. O que lá ocorria e torna aqui a acontecer é a sistemática violação, promovida pelos organismos do poder, contra a boa pesquisa e a boa ciência. Um dia, se não contivermos esse avanço brutal da barbárie, poderemos ser considerados, por nossos descendentes, como a Idade Média 2.0. Imaginem só! Imaginem que pessoas como Stephen Hawking, Richard Dawkins, Lynn Margulis, Persi Diaconis, Noam Chomsky, Eric Hobsbawm e tantos outros gênios da era contemporânea poderão ser tão vilmente renegados pela história como o foram Paulo de Égina, Isidoro de Mileto, Miguel Pselo, Roger Bacon, Guilherme de Ockham.
No fim, os bodes expiatórios dessa ameaça às conquistas do pensamento são em sua maioria cidadãos comuns, especialmente de classe média, que facilmente abraçam uma boa teoria da conspiração, sem se mostrar céticos quanto às prováveis motivações individualistas por trás delas. De uns anos pra cá, gorjeiam as mesmas papagaiadas fomentadas pela direita conservadora dos EUA sobre o aquecimento global, dizendo aos quatro ventos que não passa de uma bela farsa científica, implantada por gente de esquerda a fim de refrear a indústria dos combustíveis fósseis(e se esse for o motivo central, vejam que eles próprios estão admitindo amar esse lixo que só destrói o meio ambiente). Tem também o pessoal que, mesmo sem contrair as doenças que tanto temem, contraíram a total imbecilidade de se portar veementemente contra a vacinação. Pelo menos os manifestantes da Revolta da Vacina tinham suas justificativas sócio-políticas, próprias da época. E acho que nem vou entrar no mérito de discutir o movimento terraplanista, vejam por si próprios nos diversos grupos que, lamentavelmente, existem no Facebook.
Dizem que a ignorância é uma bênção, talvez por isso tantos estejam levando isso a sério, tentando escapar dos desvios morais e sociais que acreditam existir na sociedade. Mas não há nada de abençoado em desprezar uma das chaves da extensa melhoria na qualidade de vida que a humanidade vem experimentando desde os primeiros milênios de sua história.
Dedico o presente artigo ao grande Theotônio dos Santos, um dos maiores nomes da economia política e sociologia brasileiras, uma das mentes por trás da Teoria da Dependência e da Teoria do Sistema Mundo, ao lado, sem esquecer dos contribuintes internacionais, de outros dois gênios brasileiros: sua esposa Vânia Bambirra(1940 - 2015) e Ruy Mauro Marini(1932-1997). Infelizmente, como estes dois últimos, Theotônio nos deixou, precisamente na manhã desta terça-feira, 27 de fevereiro de 2018.
Diz a Wikipedia, em resumo, sobre este monstro sagrado do pensamento humano:
"Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília, doutor em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor emérito da Universidade Federal Fluminense. Coordenador da Cátedra e Rede da UNESCO e da UNU sobre economia global e desenvolvimento sustentável (a REGGEN)
Entre seus aportes teóricos mais destacados à economia e às ciências sociais estão a contribuição à formulação geral do conceito de dependência, à periodização das diversas fases da dependência na história da acumulação capitalista mundial, à caracterização das estruturas internas dependentes e a definição dos mecanismos reprodutivos da dependência. Tem trabalhado também sobre a teoria dos ciclos, a dinâmica de longo prazo do capitalismo e a teoria do sistema-mundo. Outra contribuição teórica foi a formulação do conceito de "civilização planetária".
Bacharel em sociologia e política pela Universidade Federal de Minas Gerais; mestre em ciência política pela Universidade de Brasília; doutor notório saber pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor notório saberpela Universidade Federal Fluminense. Comendador da Ordem do Rio Branco (Brasil). Doutor honoris causa pela Universidad Ricardo Palma (Lima, Peru), Universidad Nacional Mayor de San Marcos (Lima, Peru) e Universidad de Buenos Aires (Buenos Aires, Argentina).
Autor de 38 livros, co-autor ou colaborador de 78 livros, com 150 artigos publicados em revistas científicas, e uma vasta colaboração na imprensa periódica, seus trabalhos foram publicados em 16 línguas."
Descanse em paz, Theotônio, sua ausência física não apagará, jamais, o legado imensurável que deixou às futuras gerações de pensadores, marxistas ou não, a fim de desvendar este mundo em suas concepções econômicas, políticas e sociais.
Esse episódio é a farsa que reprisa a tragédia. Da mesma forma que em outros tempos, em outras crises de ordem político-econômica, o avanço do conservadorismo, numa onda que pode durar décadas e interromper muitos ganhos do progressismo, tem algumas peculiaridades que, apesar de não serem inéditas, acabam surgindo em meio a escândalos ou desvios que promovem um estresse coletivo. Um deles, muito evidente, é o obscurantismo. Este verbete, que é um sinônimo para a ignorância, denota a impregnação sóciocultural, mesmo que de forma não arbitrária, de algum idealismo ou irracionalismo arcaico e, assim, uma danosa negação a certos avanços científicos. A ciência é um dos marcos da civilização humana que torna nossa espécie tão distinta dentre as outras, que representa um marco do espírito criativo e quase sem fronteiras da humanidade. Os frutos do seu enriquecimento teórico-prático promovem não somente a evolução do homem, mas, com o uso parcimonioso, promove o engrandecimento da própria natureza. Vejam, por exemplo, as medidas recentes contra os muitos danos que, ao longo de séculos, causamos ao meio ambiente e que somente através de nova ciência, ciência sensata e ecologicamente consciente, podemos reverter.
A religião, antiga e onipresente(perdoem o trocadilho) inimiga da ciência mais arrojada, une suas forças ao reencarnado conservadorismo político, que seduz a juventude de nossos tempos, tal como o fez em períodos anteriores como, digamos, a primeira metade do século XX(começa com fas, termina com ismo). Sob a bandeira dos bons costumes e do tradicionalismo, os criacionistas, o movimento antivacina, os antiacadêmicos e os anti-qualquermodernidade se aventuram pelo proselitismo da retomada dos bons e velhos tempos. Estão aí, para não me deixar mentir, os terraplanistas, no extremo mais infame da equação, tentando recordar aquela bela época antes das essenciais descobertas astronômicas, antes de os bruxos Nicolau Copérnico e Galileu Galilei resolverem dar os primeiro passos rumo à iluminação ou, no que lhes diz respeito, da danação.
A coisa, evidentemente, não está num terreno escorregadio apenas por estar, ou porque há um contingente de não esclarecidos que brota do seio do arcaísmo de tempos em tempos para sabotar nossas meticulosas operações de elucidação das massas. Alguns dirão que é exagero, mas tudo tem um viés político na vida. O simples ato de nos abstermos do ato político é uma negação de viés político, pois enseja na própria negligência da vida prática, do nosso papel social mais premente. Assim o é com esse projeto de retorno à Idade Média. Um bom exemplo, um pouco externo à questão mas que alude a um propósito comum, é a moda dos monarquistas. Um bando de gente, neste caldeirão suntuoso de frivolidades que são as redes sociais, harmoniza-se sob um pretexto um tanto quanto peculiar: louvar a moribunda monarquia nacional. Há, como muitos sabem ou desconfiam, dezenas de descendentes da família real luso-brasileira vivendo não apenas em nossa antiga metrópole colonial, mas também aqui. Insatisfeitos com os desmandos ostensivos na política nacional, que lhes parece ter como denominador comum a república, os monarquistas reivindicam o direito dos descendentes de D. Pedro I e II de governar em solo nacional, para resguardar os áureos dias de nosso último imperador, um conhecido patrono do avanço técnico-científico e de tudo que há de mais erudito e avançado. De igual sorte, para resumir a ópera, ocorre com aqueles que, rebelando-se contra o sistema vigente, querem retomar os velhos hábitos também no que diz respeito à ciência, à medicina e o letramento.
Volvamos à questão política. Não se trata somente de uma histeria coletiva, por certo. Somos a geração informacional, tecnológica, moderna. Vivemos séculos à sombra da ignorância, não podemos relegar nossos avanços a uma terrível mancha de vaidade metafísica e irracional somente por puro capricho, não é? Mas eu lhes indago o que é pior: não saber das coisas e, por isso, temer as novidades como obra do maligno ou ter acesso ao que há de mais moderno e refinado em estudos científicos e, ainda assim, renegar tudo em nome da política conservadora, anticomunista, antiesquerda, antiprogressista? A agenda do neoconservadorismo é clara: as coisas eram muito melhores antes que esses desviados esquerdistas tomassem as rédeas da produção cultural e acadêmica. No Brasil, exemplifico a monstruosa excomunhão que a direita quer promover a Paulo Freire, deslegitimar sua carreira acadêmica e sua polêmica mas extremamente acurada metodologia pedagógica. O cara mais lido no exterior, laureado internacionalmente por seus esforços de inclusão social alinhada ao ensino, tendo seu bom nome arrastado pela lama do apedeutismo.
E é assim que, gradual e lentamente, damos lugar ao discurso autoritário vazio de botar ordem na casa, de "fazer a América grande outra vez", de retomar nossas raízes. Que raízes são essas se não o abismo da ignorância? Não importa se nas Américas, na Europa ou na África, o que subsistia no passado era a falta do conhecimento que se tem hoje, e não foi com pouco esforço que isso foi revertido por uma fila extensa de pensadores brilhantes e dedicados. A própria parcimônia política, os gritos de emancipação social, a diplomacia entre os diferentes países, o esforço global pela autodeterminação dos povos, todos conceitos que, mesmo não bem aplicados pelos países dominantes, foram iniciados e poderiam e podem ser desenvolvidos de forma mais completa. Tudo isso vem sendo assaltado, há séculos, por incontáveis reprises da vulgarização ideológica, que transforma todas as democracias em plutocracias conservadoras e individualistas. Isso não vem de hoje, caros. Lembremo-nos que a própria Revolução Francesa, cujos ideais ecoavam a libertação dos oprimidos, descambou quase de imediato para uma nova forma de concentração monopolista de poder, na figura de um Napoleão, que prontamente acolheu a ala mais ressentida da burguesia.
A cicuta que vitimou Sócrates, a fogueira que quase fez arder Galileu e a mordaça que quase foi colocada agora sobre Elisaldo Carlini, todos são elementos de um esforço unilateral pela inviabilização do progresso. Quando cada um destes tenta dar uma luz, ainda que diminuta, aos que estão cegos no fundo de um poço escuro, precisamos protegê-los. Sócrates morreu aos 70, mas com sua lucidez, que tantos outros ensinamentos poderia ter transmitido se tivesse vivido além? Se Galileu tivesse mesmo ardido em chamas, o que teria sido de seu nome, quem sabe? Depois de queimar-lhe a carne, a Santa Inquisição certamente haveria de queimar sua existência das páginas da história. E agora, com o professor emérito da UNIFESP, grande autoridade na pesquisa dos entorpecentes, qual é o diagnóstico? O de que nosso governo tenta conter qualquer avanço humanitário, coibir qualquer esforço de transformar a vida das pessoas da maneira menos onerosa, de demonstrar empatia ante um problema social gravíssimo. Não por coincidência, a Intervenção Federal foi decretada dia desses, como critiquei há pouco. Um esforço para conter a violência, utilizando-se de mais violência e repressão. Percebem a sinergia entre os dois fatos? "Meter bala" nos habitantes do morro e ao mesmo tempo tentar suprimir pesquisas inovadoras e formidáveis sobre o uso, frisemos, MEDICINAL e NÃO RECREATIVO da maconha, para ajudar a vida daqueles que sofrem de doenças cujos tratamentos mais ortodoxos não surtem efeito. E tudo isso com a pompa de que se está "combatendo a apologia ao crime". Ah, se tolher o avanço científico fosse crime, seriam eles tão veementes no cumprimento da lei?
Poderíamos dizer, agora, que estamos de volta à Idade Média, no que concerne à ciência e à descoberta. Mas não por conta do comum e insustentável mito de que a Idade Média foi uma Idade das Trevas, tal como se dizia na Renascença e que os ideólogos do Iluminismo assinaram embaixo, com ainda mais ênfase. Não, isso é uma falácia sem escrúpulos, oriunda da má fé. O que lá ocorria e torna aqui a acontecer é a sistemática violação, promovida pelos organismos do poder, contra a boa pesquisa e a boa ciência. Um dia, se não contivermos esse avanço brutal da barbárie, poderemos ser considerados, por nossos descendentes, como a Idade Média 2.0. Imaginem só! Imaginem que pessoas como Stephen Hawking, Richard Dawkins, Lynn Margulis, Persi Diaconis, Noam Chomsky, Eric Hobsbawm e tantos outros gênios da era contemporânea poderão ser tão vilmente renegados pela história como o foram Paulo de Égina, Isidoro de Mileto, Miguel Pselo, Roger Bacon, Guilherme de Ockham.
No fim, os bodes expiatórios dessa ameaça às conquistas do pensamento são em sua maioria cidadãos comuns, especialmente de classe média, que facilmente abraçam uma boa teoria da conspiração, sem se mostrar céticos quanto às prováveis motivações individualistas por trás delas. De uns anos pra cá, gorjeiam as mesmas papagaiadas fomentadas pela direita conservadora dos EUA sobre o aquecimento global, dizendo aos quatro ventos que não passa de uma bela farsa científica, implantada por gente de esquerda a fim de refrear a indústria dos combustíveis fósseis(e se esse for o motivo central, vejam que eles próprios estão admitindo amar esse lixo que só destrói o meio ambiente). Tem também o pessoal que, mesmo sem contrair as doenças que tanto temem, contraíram a total imbecilidade de se portar veementemente contra a vacinação. Pelo menos os manifestantes da Revolta da Vacina tinham suas justificativas sócio-políticas, próprias da época. E acho que nem vou entrar no mérito de discutir o movimento terraplanista, vejam por si próprios nos diversos grupos que, lamentavelmente, existem no Facebook.
Dizem que a ignorância é uma bênção, talvez por isso tantos estejam levando isso a sério, tentando escapar dos desvios morais e sociais que acreditam existir na sociedade. Mas não há nada de abençoado em desprezar uma das chaves da extensa melhoria na qualidade de vida que a humanidade vem experimentando desde os primeiros milênios de sua história.
IN MEMORIAN:
Diz a Wikipedia, em resumo, sobre este monstro sagrado do pensamento humano:
"Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília, doutor em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor emérito da Universidade Federal Fluminense. Coordenador da Cátedra e Rede da UNESCO e da UNU sobre economia global e desenvolvimento sustentável (a REGGEN)
Entre seus aportes teóricos mais destacados à economia e às ciências sociais estão a contribuição à formulação geral do conceito de dependência, à periodização das diversas fases da dependência na história da acumulação capitalista mundial, à caracterização das estruturas internas dependentes e a definição dos mecanismos reprodutivos da dependência. Tem trabalhado também sobre a teoria dos ciclos, a dinâmica de longo prazo do capitalismo e a teoria do sistema-mundo. Outra contribuição teórica foi a formulação do conceito de "civilização planetária".
Bacharel em sociologia e política pela Universidade Federal de Minas Gerais; mestre em ciência política pela Universidade de Brasília; doutor notório saber pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor notório saberpela Universidade Federal Fluminense. Comendador da Ordem do Rio Branco (Brasil). Doutor honoris causa pela Universidad Ricardo Palma (Lima, Peru), Universidad Nacional Mayor de San Marcos (Lima, Peru) e Universidad de Buenos Aires (Buenos Aires, Argentina).
Autor de 38 livros, co-autor ou colaborador de 78 livros, com 150 artigos publicados em revistas científicas, e uma vasta colaboração na imprensa periódica, seus trabalhos foram publicados em 16 línguas."
Descanse em paz, Theotônio, sua ausência física não apagará, jamais, o legado imensurável que deixou às futuras gerações de pensadores, marxistas ou não, a fim de desvendar este mundo em suas concepções econômicas, políticas e sociais.
Comentários
Postar um comentário