As Diferentes Narrativas na Sapucaí: da ideologia ao concreto

Ideologia, termo cunhado pelo filósofo francês Destutt de Tracy(1754-1836), é algo cujo significado é dado de diferentes formas dentro do pensamento moderno. Tenho predileção, porém, pela definição de Karl Marx(1818-1883). De acordo com ele, em A Ideologia Alemã: “(...)a moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, tal como as formas de consciência que lhes correspondem, perdem imediatamente toda a aparência de autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento; serão antes os homens que, desenvolvendo a sua produção material e as suas relações materiais, transformam, com esta realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos desse pensamento.(...)Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual.”.

Posto isso, Marx pensava que a ideologia é um conjunto de pensamentos dominantes impostos à sociedade com um verniz alienante, tratando de submeter a todos pelo convencimento, através do senso comum. Seria, por fim, um falseamento da realidade, uma distorção proposital a fim de enganar e dissimular, estabelecendo, por consequência, que um indivíduo não possui ideologia, mas a ideologia é que o possui.

Os manifestoches - Paraíso do Tuiuti
As distintas percepções sobre o Brasil atual, tal como se observa a partir do enredo das duas maiores pontuadoras do Carnaval carioca este ano – a campeã Beija-Flor e a vice, Paraíso do Tuiuti – demonstram claramente o ambíguo jogo ideológico e a maneira como os organismos do poder vigente se aproveitam de tal situação para sua própria benesse. O discurso calcado na corrupção e no escancaramento do crime organizado na política, adotado pela Beija-Flor como uma alegoria de seu tema sobre monstros(homenageando os 200 anos de Frankenstein, da autora britânica Mary Shelley(1797-1851), soa exatamente como aquilo que o brasileiro médio de hoje quer ouvir, justamente porque é o tipo de viés adotado, hipocritamente, pelos principais conglomerados da mídia e até mesmo pelo atual governo federal, tentando se livrar da culpa por seus próprios crimes. Sob uma análise rasteira e quase acrítica, “isentona”, tal discurso parece se assemelhar ao da Paraíso do Tuiuti, que denunciou não somente a escravidão como um todo, mas os problemas sociais vividos no país atualmente. 

Porém, ambas as visões guardam uma perspectiva diametralmente oposta, na medida em que uma tenta imputar a culpa pelas mazelas sociais do país sobre os impostos e a corrupção, ou querendo colocar como sintoma da pobreza os desvios ético-morais de uma parcela da classe mais abastada. Reputam, assim, os criminosos das favelas e das ruas como equivalentes aos criminosos que atuam no Congresso e no Executivo, parametrizando o brasileiro como essencialmente corrupto.
Do outro lado, a agremiação nascida no Morro do Tuiuti preferiu abordar a profunda pauperização nacional a partir de um retrospecto da escravidão, que partiu de uma análise histórica mais ampla, desde o escravagismo do modo de produção asiático e clássico até o trabalho assalariado moderno e suas inconsistências muito similares à escravidão mais comumente conhecida, aquela dos negros do Brasil colonial. Aqui, o cidadão comum, cujos desvios sociais jamais são colocados em pé de igualdade com aqueles cometidos pela classe dominante, é retratado, em sua pobreza e marginalidade, como fruto do nosso processo exploratório original, filho de sangue e espírito do mais longevo processo escravagista das Américas e do mundo moderno. Após o outorgamento da Lei Áurea, em 1888, os alforriados foram jogados ao léu da própria sorte, relegados ao trabalho informal e às moradias irregulares que originariam, com sua estrutura de cortiço, as infames favelas que se aglutinam à paisagem urbana contemporânea de quase todos os centros mais populosos do Brasil. Se de uma das escolas parte uma crítica que contorna parte da problemática nacional sem nunca chegar ao âmago da questão, de outro vemos ser colocado o dedo diretamente na ferida, nas origens e no desenvolvimento de um processo histórico que mitigou nossa evolução civilizatória e nos colocou como reféns do imperialismo internacional.

Claro que não é simples assim, preto ou branco. Não é apenas um jogo polarizado de opiniões em disputa e esse artigo não é uma defesa unilateral. A letra cantada pelo famoso intérprete Neguinho da Beija-Flor e parte das alegorias trazidas à Sapucaí pela escola campeã tinham traços de sanidade social sim. Mas a inteligência maquiavélica do pensamento liberal moderno guarda esses mesmos traços de um conservadorismo burguês travestido de progressismo. É o discurso fácil e gostoso de engolir, que choca e emociona por sua simplicidade transgressora. Havia até mesmo, por exemplo, uma merecida ala contra a intolerância, encabeçada pela famosa musicista drag queen Pabllo Vittar. E é através da cooptação de pautas identitárias e a identificação equivocada, mas convincente, dos motivos e origens de nossos problemas que esse discurso soa tão poderoso e arrebata um turbilhão de pessoas bem-intencionadas, politicamente inflamadas, mas com pouco senso da realidade objetiva.

Claro que a verdade de cada um, esse laço subjetivo entre o concreto e a idealização individual, é personalíssima e merece ser respeitada. Mas não há duas realidades objetivas. A realidade é uma só, construída social e historicamente, com a participação indireta e direta de todos nós, membros de uma mesma sociedade. Como já propunha o antes mencionado Marx, em seu O 18 Brumário de Luís Bonaparte: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”

Não quer dizer, evidentemente, que a irresignação ante a corrupção, a violação de uma importantíssima instituição como a Petrobrás, a intolerância contra as minorias sociais não sejam parte de uma importante retórica dentro do contexto atual. Faz cair por terra, inclusive, aquele pueril discurso de que as pessoas deveriam parar de pular Carnaval e ir pras ruas protestar, como se uma festa que dura poucos dias fizesse precluir a oportunidade de se levantar contra os desmandos da ala política dominante ou como se nela própria, tal qual se fazia nos primórdios dos blocos e cordões, não se pudesse levantar a voz contra o que bem se entenda. Mas é nocivo o profundo idealismo que está contido nesse tipo de recorte. A corrupção não é sintoma ou consequência da pobreza ou um gene defeituso de nosso país, a corrupção é um aparato ideológico da burguesia pra se furtar da responsabilidade por seus desvios de ordem moral. A Petrobrás e o Congresso não são um espelho da favela ou vice-versa: são instituições corrompidas pela mesma classe político-empresarial que está na árvore genealógica dos mandatários que fizeram nascer as favelas, através da exploração e alienação, muito bem denunciada pela Paraíso do Tuiuti. O que essa alegoria da Beija-Flor, sobre a tal pátria traidora, quer nos fazer crer é que, além de a nossa situação ser descolada dos princípios comuns de qualquer país capitalista, onde a desigualdade social é imperativa e dá surgimento a todos esses problemas em maior ou menor escala, o brasileiro é essencialmente mau, uma espécie de analogia tupiniquim ao antiquado discurso do filósofo britânico Thomas Hobbes(1588-1679), ou seja, querem que todos nos sintamos culpados por nossos erros como sociedade, de forma coletiva. O Brasil não traiu a ninguém. O Brasil não é uma entidade extra-física e monstruosa que negligenciou seus filhos. Nós somos o Brasil, cada um dos trabalhadores e trabalhadores que construíram uma nação de complexas dimensões, em todos os sentidos. Devemos nosso legado de subdesenvolvimento a uma casta social controladora, dissimulada, que não é essencialmente má tampouco, mas é ideologicamente formada no cerne de sua própria classe social. Há lá no Congresso um hoste de proprietários fundiários, burgueses de toda estirpe, que se utilizam do argumento de “limpar a corrupção” pra comprar votos, sem fazer transparecer que a corrupção é ela própria uma das engrenagens institucionais do sistema que está no poder.

Vejam, ainda, a forma como a Rede Globo, principal consórcio midiático das Américas e influenciadora política mór do Brasil, tratou ambos os desfiles. O descaso ressentido e o boicote ocorridos um dia depois do desfile da Tuiuti não foi, de nenhuma maneira, observado em relação à Beija-Flor. O demagógico e vazio discurso anti corrupção não lhe é ameaçador, é na verdade uma das pautas que os seus fantoches políticos sempre usam para convencer os incautos. Já a denúncia da exploração do trabalho, da utilização da mídia como mestre de marionetes de verde e amarelo, isso sim causou incômodo à emissora. Percebam o silêncio mais destacado entre os comentaristas, que tiveram que transmitir, ao vivo e para todo o país, um desfile que colocava o capital como único e verdadeiro vilão da nossa sociedade contemporânea. A Tuiuti se infiltrou num dos momentos de maior visibilidade e audiência da emissora e a fez ser achincalhada, ao vivo, diante de milhões.

Não podemos continuar a ser enganados. Colocam diante de nós inimigos intangíveis, figuras fantasmagóricas e abstratas que povoam o imaginário coletivo como bichos-papões feitos para adultos. FGTS, PIS, Estado, criminalidade...diversas entidades apavorantes que são temidas e cultuadas como demônios sociais. Esse idealismo infantilóide, porém, é uma arma poderosa de convencimento para narrar ao brasileiro a fábula do progresso, a de que seremos um país grande quando tivermos um Estado mínimo, entregue aos desígnios norte-americanos, privatizando todas as grandes estatais, dando armas para que os “cidadãos de bem” combatam o crime por conta própria. Todo esse conto de fadas serve ao único propósito de esconder do povo seu único e verdadeiro inimigo: a classe burguesa. A mesma classe burguesa que, do século XIX para cá, evoluiu e se tornou mais complexa, mas persiste parasitando o Estado para garantir seus privilégios e minar os direitos dos trabalhadores até o limite com o qual se conformem, evitando assim uma revolta. Mas já foi ultrapassado esse limite e a Tuiuti, neste evento que a esquerda pequeno-burguesa achava que era só pão e circo e hedonismo, mandou o recado e alertou. 

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